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O intestino como centro de comando da saúde: imunidade, cérebro e longevidade

Durante séculos, a medicina olhou para o intestino de forma puramente mecânica: um tubo responsável por processar alimentos e excretar resíduos. No entanto, a ciência moderna, através da medicina de precisão e da genética, revirou esse conceito. Hoje, afirmamos categoricamente: o intestino não é apenas um órgão digestivo, ele é o centro de comando da saúde metabólica, imunológica e mental.

A máxima atribuída a Hipócrates, o pai da medicina, diz que “toda doença começa no intestino”. Hoje, sabemos que ele estava biologicamente correto.

Neste artigo, vamos aprofundar a visão sistêmica da saúde digestiva. Você vai entender por que tratamos o intestino como o “segundo cérebro”, como a disbiose (desequilíbrio bacteriano) pode ser o gatilho para doenças autoimunes e câncer, e como o conceito de biohacking pode ser aplicado para blindar sua saúde através da modulação intestinal.

A revolução da microbiota: um órgão esquecido

Para entender o poder do intestino, precisamos olhar para quem vive nele. A microbiota intestinal é um ecossistema complexo composto por trilhões de microrganismos, incluindo bactérias, vírus, fungos e arqueas. Para se ter uma ideia da dimensão, temos 150 vezes mais genes bacterianos no nosso intestino do que genes humanos em todo o nosso corpo.

Essa colônia não está ali de passagem. Ela desempenha funções vitais que nosso corpo não conseguiria realizar sozinho:

  • Síntese de vitaminas: produção de vitamina K e vitaminas do complexo B.
  • Metabolismo de medicamentos: a eficácia de muitos remédios depende da saúde dessas bactérias.
  • Barreira de proteção: bactérias benéficas ocupam espaço e impedem que patógenos (vírus e bactérias ruins) se instalem.

Quando esse ecossistema está em equilíbrio, chamamos de eubiose. Quando há um desajuste, seja pela dieta pobre, uso excessivo de antibióticos ou estresse crônico, entramos em disbiose. E é na disbiose que a comunicação entre o intestino e o restante do corpo começa a falhar.

O eixo intestino-cérebro: a via de mão dupla

Você já sentiu “frio na barriga” antes de uma decisão importante? Ou teve uma crise de diarreia em momentos de ansiedade extrema? Isso não é coincidência. É a conexão anatômica e química direta entre seu sistema digestivo e seu sistema nervoso central.

O intestino possui seu próprio sistema nervoso, o sistema nervoso entérico, contendo cerca de 500 milhões de neurônios. Ele se comunica com o cérebro principalmente através do nervo vago.

A química da felicidade (e da depressão)

Um dado que surpreende muitos pacientes no consultório é que cerca de 90% a 95% da serotonina do corpo, o neurotransmissor do bem-estar, é produzida no intestino, e não no cérebro. Embora essa serotonina não entre diretamente no cérebro, ela sinaliza o estado de bem-estar através do nervo vago. Além disso, o intestino produz GABA, dopamina e outros neurotransmissores cruciais.

Isso muda a forma como enxergamos a saúde mental. Estudos recentes sugerem que um intestino inflamado envia sinais de perigo ao cérebro, o que pode manifestar-se como ansiedade crônica e depressão. Tratar a mente, muitas vezes, exige começar tratando a digestão.

Intestino e imunidade: a primeira linha de defesa

Se o intestino é o segundo cérebro, ele é, sem dúvida, o quartel-general da imunidade. Aproximadamente 70% a 80% das células do sistema imunológico residem na mucosa intestinal, no chamado GALT (tecido linfoide associado ao intestino).

Isso faz sentido evolutivo . O intestino é a maior superfície de contato do nosso corpo com o mundo externo através da comida. É ali que o corpo precisa decidir, a cada refeição, o que é nutriente amigo e o que é patógeno ou toxina inimiga.

Uma microbiota saudável treina as células de defesa para reagirem na medida certa.

  • Reação exagerada: pode levar a alergias alimentares e doenças autoimunes.
  • Reação fraca: deixa o corpo suscetível a infecções e, a longo prazo, permite a proliferação de células tumorais.

Leaky gut: o gatilho da inflamação silenciosa

Talvez o conceito mais importante para a longevidade seja o da permeabilidade intestinal, conhecido em inglês como leaky gut syndrome.

Imagine que o revestimento do seu intestino é como um filtro de café ou uma peneira muito fina. Em um intestino saudável, as células estão coladas umas nas outras por estruturas chamadas junções de oclusão (tight junctions). Elas permitem que apenas nutrientes digeridos passem para o sangue, bloqueando toxinas e bactérias.

Porém, fatores como glúten em excesso para pessoas sensíveis, álcool, anti-inflamatórios, estresse e disbiose podem afrouxar essas junções.

O resultado é que restos de comida não digerida, toxinas e pedaços de bactérias, como o LPS (lipopolissacarídeo), vazam para a corrente sanguínea.

O sistema imune, ao detectar esses invasores no sangue, soa o alarme e inicia um ataque. Isso gera uma inflamação crônica de baixo grau. Você não sente febre ou dor aguda, mas seu corpo está combatendo um inimigo invisível por dentro, cronicamente. Essa inflamação sistêmica é a raiz da resistência insulínica, obesidade, fadiga crônica e doenças neurodegenerativas.

A conexão com o câncer e doenças crônicas

Como cirurgião oncológico, esta é a área que mais exige atenção. A inflamação crônica, nascida no intestino, cria um microambiente favorável ao desenvolvimento de tumores.

  • Dano ao DNA: o estresse oxidativo constante gerado pela inflamação pode causar mutações no DNA das células.
  • Falha na vigilância: um sistema imune ocupado combatendo a inflamação intestinal pode falhar em detectar e eliminar células anormais que surgem diariamente.

No caso específico do câncer colorretal, a relação é direta. Uma dieta pobre em fibras e rica em ultraprocessados altera a microbiota, favorecendo bactérias que produzem metabólitos cancerígenos, agredindo diretamente a parede do cólon e do reto.

Biohacking digestivo: retomando o controle

Não precisamos de mágica para restaurar a saúde intestinal. Precisamos de biologia aplicada. O biohacking médico propõe ajustes no estilo de vida baseados em evidências para otimizar essa função.

  • Alimentação como informação

Coma comida de verdade. Fibras prebióticas encontradas na cebola, alho, alcachofra e banana verde são o alimento das bactérias boas. Evite emulsificantes e adoçantes artificiais, que comprovadamente agridem a mucosa.

  • O ciclo do sono

A microbiota também tem ritmo circadiano. Dormir mal altera a composição das bactérias intestinais. Priorize a higiene do sono como parte do tratamento digestivo.

  • Gerenciamento do estresse

O estresse libera cortisol. O cortisol aumenta a permeabilidade intestinal. Práticas de modulação de estresse, como meditação e exercícios respiratórios, têm impacto físico direto na sua digestão.

  • Suplementação estratégica

O uso de probióticos (bactérias vivas), glutamina para reparo da mucosa e outros moduladores deve ser feito com indicação médica, personalizada para o tipo de disbiose que o paciente apresenta. O que funciona para um, pode piorar o estufamento de outro.

Sintomas digestivos não são normais. Gases excessivos, estufamento, alternância do hábito intestinal ou azia constante são pedidos de socorro do seu centro de comando.

Ignorar esses sinais é permitir que a inflamação avance para outros sistemas do corpo.

A medicina moderna nos oferece ferramentas incríveis, desde testes genéticos da microbiota até a cirurgia robótica de precisão, mas a base da saúde continua sendo o equilíbrio desse sistema vital.

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