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Distúrbios digestivos mais comuns e quando investigar: o guia definitivo

Vivemos em uma cultura que normalizou o desconforto digestivo. Para a maioria das pessoas, sentir queimação após o café, estufamento após o almoço ou constipação durante viagens é apenas “parte da vida”. As farmácias estão lotadas de antiácidos, laxantes e digestivos efervescentes que prometem alívio imediato.

Eles até cumprem a promessa de aliviar o sintoma momentaneamente. Mas, na medicina de precisão, aliviar não é tratar.

Como cirurgião do aparelho digestivo, vejo diariamente pacientes que mascararam sintomas por anos. O que começou como uma “aziazinha” evoluiu para um esôfago de Barrett (lesão pré-cancerígena). O que parecia “apenas gases” era, na verdade, uma intolerância severa ou uma doença inflamatória.

Neste guia completo, vou detalhar os distúrbios digestivos mais comuns que afetam a população moderna. Você vai aprender a diferenciar um mal-estar passageiro de um quadro clínico que exige investigação e entenderá por que o seu corpo não deve viver inflamado.

A cultura perigosa da automedicação

Antes de entrarmos nas doenças, precisamos falar sobre o comportamento do paciente. O acesso fácil a inibidores de bomba de prótons (os famosos “prazóis”) criou uma falsa sensação de segurança.

Ao tomar um remédio que bloqueia a acidez gástrica sem supervisão médica, você retira o sinal de alerta do seu corpo. A dor é um mecanismo de defesa. Se você a cala quimicamente sem descobrir a causa, a doença de base continua progredindo silenciosamente. Além disso, o uso crônico e indiscriminado dessas medicações pode alterar a microbiota intestinal e prejudicar a absorção de nutrientes como vitamina B12 e cálcio.

Se você precisa de remédio para digestão mais de duas vezes por semana, você não tem um “estômago sensível”. Você tem uma patologia não diagnosticada.

1. Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE)

Não é apenas uma queimação. A DRGE ocorre quando o esfíncter inferior do esôfago, a válvula que deveria impedir o retorno da comida, não fecha corretamente. O ácido do estômago sobe e queima a mucosa do esôfago, que não foi feita para suportar esse pH.

Sintomas clássicos:

  • Azia ou pirose (queimação retroesternal).
  • Regurgitação ácida (gosto amargo na boca).

Sintomas atípicos (que confundem o paciente):

  • Tosse seca crônica.
  • Rouquidão, especialmente pela manhã.
  • Dor no peito que simula infarto.
  • Desgaste do esmalte dentário.

Quando investigar: Se os sintomas ocorrem duas ou mais vezes por semana ou se você precisa dormir com travesseiros altos para não engasgar. A investigação é feita por endoscopia digestiva alta e, em casos específicos, pHmetria e manometria. Ignorar o refluxo a longo prazo pode levar ao câncer de esôfago.

2. Dispepsia Funcional (a famosa “Gastrite Nervosa”)

Muitos pacientes chegam ao consultório jurando que têm gastrite. Fazem a endoscopia e o resultado é normal. Isso é o que chamamos de Dispepsia Funcional.

Trata-se de um transtorno na sensibilidade e na motilidade do estômago. O órgão não tem uma ferida visível, mas não relaxa adequadamente para receber a comida ou demora muito para esvaziá-la.

Sintomas:

  • Sensação de “empachamento” logo no início da refeição (saciedade precoce).
  • Dor na “boca do estômago”.
  • Náuseas constantes.

Quando investigar: Sempre que a dor atrapalhar sua rotina alimentar. O diagnóstico é de exclusão, ou seja, precisamos garantir que não há uma úlcera ou a bactéria H. pylori causando o problema antes de tratar a parte funcional e comportamental.

3. Síndrome do Intestino Irritável (SII)

A SII é uma das condições mais prevalentes no mundo moderno e está intimamente ligada ao eixo intestino-cérebro. Não é uma doença inflamatória visível nos exames de imagem, mas é uma disfunção real na forma como o intestino se movimenta e sente a dor.

Sintomas:

  • Dor abdominal que melhora após evacuar.
  • Alternância entre diarreia e constipação.
  • Gases excessivos e distensão abdominal visível.
  • Muco nas fezes.

Quando investigar: Se os sintomas persistirem por mais de três meses. É crucial diferenciar a SII de doenças mais graves, como a Doença de Crohn ou a Retocolite Ulcerativa, e investigar disbiose ou SIBO (supercrescimento bacteriano) associados.

4. Litíase Biliar (Pedra na Vesícula)

Diferente das condições anteriores, aqui temos um problema mecânico. A bile, produzida no fígado e armazenada na vesícula, pode cristalizar e formar cálculos.

O perigo silencioso: Muitas pessoas têm pedras e não sentem nada. O problema acontece quando uma pedra se move e bloqueia a saída da vesícula ou o canal do pâncreas.

Sintomas:

  • Dor intensa no lado direito superior do abdômen, geralmente após comer gordura.
  • A dor pode irradiar para as costas ou ombro direito.
  • Náuseas e vômitos.

Quando investigar: Ao primeiro sinal de cólica biliar. Uma pedra que migra pode causar pancreatite aguda, uma condição gravíssima com risco de morte. O diagnóstico é simples, feito por ultrassom abdominal.

5. Intolerâncias Alimentares e Disbiose

Nem tudo é doença crônica. Muitas vezes, o distúrbio digestivo é uma inabilidade do corpo de processar certos alimentos (como a lactose ou o glúten em não-celíacos) ou um desequilíbrio na flora bacteriana.

O consumo excessivo de ultraprocessados, álcool e antibióticos mata as bactérias boas e favorece as ruins, gerando fermentação excessiva.

Sintomas:

  • “Barriga de grávida” no fim do dia (muita distensão).
  • Gases com odor fétido.
  • Fadiga e “brain fog” (névoa mental) após comer.

Sinais de Alerta (Red Flags): quando correr para o médico

Além dos quadros acima, existem sintomas que a medicina chama de “sinais de alarme”. Eles indicam que algo mais sério pode estar acontecendo, como um tumor ou uma obstrução.

Se você apresentar qualquer um destes sinais, a investigação deve ser imediata, independentemente da sua idade:

  1. Perda de peso não intencional: emagrecer sem fazer dieta nunca é normal.
  2. Disfagia: sensação de que a comida está “entalada” no peito ao engolir.
  3. Sangramento: vômito com sangue ou fezes escuras/com sangue vivo.
  4. Anemia: ferro baixo sem causa ginecológica óbvia.
  5. Histórico familiar: parentes de primeiro grau com câncer de estômago ou intestino.

A tecnologia a favor do diagnóstico

A medicina digestiva evoluiu absurdamente. Hoje, não dependemos apenas da “mão no abdômen”.

Temos endoscopias com magnificação de imagem que enxergam células pré-cancerígenas invisíveis a olho nu. Temos a cápsula endoscópica, uma pílula com câmera que filma todo o intestino delgado. Temos testes respiratórios para detectar intolerâncias e supercrescimento bacteriano.

Não há motivo para viver com dor ou desconforto.

Sua digestão é seu termômetro

Sua saúde digestiva é o termômetro da sua saúde sistêmica. Um sistema digestivo que reclama o tempo todo está avisando que a inflamação está instalada.

O caminho para a longevidade começa em resolver essas pendências. Não se acostume com o que te faz mal. Investigue, trate e recupere o prazer de comer e viver bem.

Você se identificou com algum desses quadros? Agende sua consulta e vamos investigar a causa raiz.

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