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Por que o câncer colorretal cresce entre jovens: a epidemia silenciosa

Até pouco tempo atrás, ao receber um paciente de 30 ou 35 anos com queixas de sangramento retal, a hipótese diagnóstica imediata da maioria dos médicos era benigna: hemorroidas ou fissuras. O câncer de intestino era visto como uma “doença de idoso”, algo para se preocupar apenas após a aposentadoria.

Infelizmente, a realidade médica de 2026 nos obriga a mudar radicalmente essa visão.

Estamos vivendo o que a comunidade científica chama de early-onset colorectal cancer, ou câncer colorretal de início precoce. Estudos epidemiológicos globais mostram que, enquanto a incidência da doença cai ou estabiliza em pessoas acima de 60 anos (graças ao rastreamento), ela cresce de forma alarmante entre os millennials e a geração Z.

Neste artigo, vou explicar as causas biológicas e comportamentais por trás desse fenômeno, quais sintomas jamais devem ser subestimados por serem “coisa de jovem” e como a medicina de precisão atua na prevenção.

Não é apenas genética: o ambiente mudou

A primeira pergunta que ouço no consultório quando dou um diagnóstico para um paciente jovem é se isso é culpa da genética.

Embora síndromes hereditárias como a Síndrome de Lynch existam e precisem ser investigadas, elas representam a minoria dos casos (cerca de 5% a 10%). A grande maioria dos novos diagnósticos em jovens é esporádica. Ou seja, não herdada, mas adquirida.

Isso aponta para um culpado claro: o expossoma. O expossoma é o conjunto de todas as exposições ambientais e de estilo de vida que sofremos desde o nascimento. O corpo do jovem de hoje foi exposto, desde a infância, a fatores que as gerações passadas só encontravam na vida adulta.

O papel dos ultraprocessados e da disbiose

A alimentação mudou drasticamente nas últimas três décadas. Não estamos falando apenas de “comer fast-food”, mas da onipresença de alimentos ultraprocessados ricos em emulsificantes, conservantes e xarope de milho.

Essas substâncias têm um efeito direto na camada de muco que protege a parede do intestino. Quando essa barreira é degradada, as células do cólon ficam expostas a toxinas e bactérias inflamatórias.

Isso gera uma disbiose severa (desequilíbrio da flora intestinal) muito cedo na vida. Bactérias como a Fusobacterium nucleatum têm sido encontradas com mais frequência em tumores de pacientes jovens. Elas criam um microambiente inflamatório que acelera a mutação celular, transformando um pólipo benigno em câncer de forma mais rápida do que o habitual.

Sintomas que jovens costumam ignorar

O maior perigo do câncer em jovens é o atraso no diagnóstico. Muitas vezes, o paciente demora a procurar ajuda porque acha que é “muito novo para ter algo grave”, e, infelizmente, alguns profissionais de saúde também podem subestimar os sinais inicialmentes.

Você precisa estar atento a quatro sinais de alerta, independentemente da sua idade:

  • Sangramento retal: sangue vivo ou escuro nas fezes nunca é normal. Atribuir isso automaticamente a hemorroidas sem exame físico é um erro.
  • Mudança no hábito intestinal: se o seu intestino funcionava como um relógio e, de repente, passou a alternar entre diarreia e prisão de ventre sem motivo aparente.
  • Fezes afiladas: se o calibre das fezes diminuiu (ficaram finas como uma fita ou lápis), isso pode indicar uma obstrução mecânica no reto.
  • Cansaço inexplicável: a anemia por deficiência de ferro em homens ou mulheres fora do período menstrual é um sinal clássico de perda de sangue oculta no trato digestivo.

A nova idade do rastreamento

Diante desse cenário, as diretrizes mundiais mudaram. Se antes a recomendação para a primeira colonoscopia era aos 50 anos, hoje a indicação oficial começa aos 45 anos.

No entanto, a medicina de precisão vai além da diretriz populacional. Avaliamos o risco individual.

Se você tem histórico familiar de pólipos ou câncer, obesidade, diabetes ou doença inflamatória intestinal, seu rastreamento deve começar ainda antes, muitas vezes aos 30 ou 35 anos.

A colonoscopia não é apenas um exame diagnóstico, ela é terapêutica. A maioria dos cânceres de intestino começa como um pequeno pólipo adenomatoso. Ao fazer o exame e remover esse pólipo, nós literalmente interrompemos a história natural da doença. Nós prevenimos o câncer antes que ele exista.

Sedentarismo e o “sitting disease”

Outro fator crucial é o comportamento sedentário. A geração atual passa mais tempo sentada do que qualquer outra na história humana.

O sedentarismo aumenta a resistência à insulina e os níveis de fatores de crescimento (como o IGF-1) circulantes no sangue. Esses hormônios, em excesso, funcionam como “adubo” para a proliferação celular desordenada. Manter-se ativo não é apenas sobre estética ou coração, é uma estratégia oncológica comprovada.

A prevenção não tem idade

O câncer colorretal é altamente prevenível e curável quando detectado cedo. O aumento de casos em jovens é um sinal de alerta da biologia moderna, mostrando que nosso estilo de vida está cobrando um preço alto.

Não normalize sintomas digestivos persistentes. Se você tem sangramento, dor ou alteração intestinal, a idade na sua identidade não é um fator de proteção.

Investigar é um ato de responsabilidade com o seu futuro.

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